Nosso interesse, no entanto, reside em situar a audiodescrição tomando por base o seu potencial pedagógico, na condição de técnica ou serviço de promoção da acessibilidade capaz de permitir ao educador inclusivo, nas mais variadas situações didáticas desenvolvidas no cotidiano escolar, a construção e narração de roteiros audiodescritos que possam ilustrar e enriquecer o processo de ensino/aprendizagem, ao passo que beneficia o educador no planejamento de aulas inclusivas, voltadas à diversidade dos alunos, e favorecem os próprios educandos, usuários do recurso.
Para Guedes et al, o uso da audiodescrição no contexto
pedagógico também permite às pessoas disléxicas uma melhor absorção de
informações e conhecimentos, uma vez que as dificuldades relacionadas à
leitura, escrita e soletração advindas da dislexia estariam sendo dribladas em
virtude da utilização do recurso sonoro, o que facilitaria o entendimento das
informações contidas nos textos, a partir de sua escuta.
Com o propósito de desvelar a potencialidade pedagógica
da audiodescrição, os autores apontam, ainda, algumas ações que podem ser
empreendidas pelos professores da educação básica e replicadas nos demais
níveis de escolarização formal, no sentido de se promover a acessibilidade
comunicacional que conduzirá os educandos com deficiência à desejada inclusão
escolar.
Com ações que envolvem não só o professor, mas também
toda a escola e a comunidade escolar, os educandos com e sem deficiência serão
formados com a perspectiva da inclusão social, ou seja; tendo respeitados os
seus direitos de acesso ao conhecimento formal, à cultura, aos espaços físicos
e também à própria liberdade de expressão e empoderamento, mobilizadores da
autonomia e independência.
Assim, mediante utilização da audiodescrição como
ferramenta de cunho pedagógico, os educadores inclusivos poderão:
- minimizar ou eliminar as barreiras presentes nos
meios de comunicação que se interponham ao acesso à educação, tais como aquelas
presentes no acesso a materiais bibliográficos;
- proporcionar que alunos com deficiência visual, com
dislexia e outros tenham acesso aos conteúdos escolares, no mesmo tempo em que
o restante da turma;
- permitir que todas as ilustrações, imagens, figuras,
mapas, desenhos e demais configurações bidimensionais, presentes nos livros
didáticos, fichas de exercícios, provas, comunicados aos pais, cartazes,
circulares internas etc. também sejam disponibilizados em audiodescrição;
- zelar pela autonomia, empoderamento e independência
dos alunos com deficiência visual e outros usuários do recurso;
- atentar para utilizar de modo eficiente seu
potencial de visão, realizando as atividades com autonomia e conforto por meio
do uso de óculos e da adequada iluminação e disposição do mobiliário em sala de
aula, ou ainda, participar e interagir ativamente com seus pares em sala de
aula a partir das relações estabelecidas com a escola e a família. -
perceber a transversalidade do recurso, por exemplo, ao estimular que, com uso
de uma atividade coletiva de audiodescrição, durante uma aula de matemática ou
de ciências, os alunos possam desenvolver descrições por escrito, de tal sorte
que as informações ali contidas possam ser aproveitadas nas aulas de língua
portuguesa;
- considerar a importância de democratizar as
informações e conhecimentos construídos em sala de aula para toda a comunidade
escolar, oferecendo aquele recurso em exposições, mostras, feiras de ciências,
apresentações, reuniões de pais e mestres, encontros pedagógicos, aulas de
reforço escolar, excursões temáticas, jogos e olimpíadas esportivas, exibição
de filmes e nos demais encontros e atividades cuja educação seja o foco;
- reforçar o respeito pela diversidade humana,
praticando e divulgando ações de cunho acessível entre os alunos com e sem
deficiência;
- atrair parceiros que possam financiar projetos de
acessibilidade na escola e a partir dela;
- criar programas e projetos de voluntariado e
monitoria que envolva o público interno da instituição e a comunidade escolar,
a fim de capacitar os interessados na temática da audiodescrição e levar
adiante outras iniciativas de acessibilidade;
- promover encontros de formação, reflexão e
sensibilização sobre a inclusão social das pessoas com deficiência para
professores, funcionários, gestores, alunos e comunidade, fortalecendo a máxima
de que a inclusão só poderá ser construída por intermédio da perpetuação de
práticas acessíveis, ou seja, a partir da eliminação de barreiras, tais como as
atitudinais e aquelas presentes nos meios de comunicação.
Cientes de que a tarefa de educar na perspectiva
inclusiva exige, antes de tudo, a crença irrestrita na capacidade humana de
aprender sempre, ainda que em ritmos e de maneiras diferentes, acreditamos que
todo educador, atuando em qualquer modalidade da educação básica, seja capaz de
incorporar à sua prática docente a utilização de tecnologias assistivas.
E, sendo a audiodescrição uma dessas tecnologias,
conclamamos a todos os educadores comprometidos com a proposta de educar
pessoas, independentemente de rótulos ou estigmas, a estudar a sério o
potencial dessa enriquecedora ferramenta pedagógica, na certeza de que os
lucros advindos desse investimento, para além do enriquecimento na própria
formação docente, também implicarão a resposta positiva dos educandos com
deficiência, incluídos e verdadeiramente atuantes.
Lívia Couto Guedes possui licenciatura
plena em pedagogia, com habilitação em administração escolar e mestrado em
educação pela Universidade Federal de Pernambuco - Ufpe (2004 e 2007,
respectivamente). É estudiosa das questões relacionadas à inclusão social de
pessoas com deficiência, com ênfase no enfoque educacional e escolar. É
audiodescritora, atuando na promoção de acessibilidade comunicacional para a
pessoa cega e com baixa visão por meio da construção e narração de roteiros
acessíveis. Atualmente, é professora substituta da Ufpe, lotada no Colégio de
Aplicação, no qual leciona a disciplina de pesquisa no ensino fundamental e
integra o Serviço de Orientação e Experimentação Pedagógica.
Lívia Couto Guedes
Fonte: Revista Nacional de Tecnologia Assistiva
Outras informações sobre audiodescrição:
- Audiodescrição
em sala de recursos multifuncionais
- A
audiodescrição e suas implicações pedagógicas
- UFSCAR
ensina aritmética modular em vídeo com audiodescrição
- http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/2012/07/os-usos-pedagogicos-da-audiodescricao.html